Nathaniel Hawthorne | A Letra Encarnada


"Era absurdo, com a materialidade desta vida quotidiana a apertar-me tão intrusamente, tentar figurar-me a vida de outra época, ou insistir em criar à semelhança de um mundo com matéria aérea, quando, a cada passo, a beleza impalpável da minha bola de sabão se desfazia ao contacto rude de qualquer circunstância real. O esforço mais hábil fora talvez o de difundir pensamento e imaginação através da substância opaca do dia de hoje, e assim torná-la uma transparência luminosa; espiritualizar o fardo que começava a pesar tanto; procurar, resolutamente, o valor verdadeiro e indestrutível que jazia sob os incidentes pequeninos e mesquinhos, as personagens vulgares, de que eu agora tinha experiência. A culpa era minha. A página de vida, que se abria diante de mim, parecia vulgar e entediante apenas porque eu não tinha aprofundado o seu sentido íntimo. Estava ali um livro melhor que qualquer que eu venha a escrever; folha a folha apresentando-se-me à medida que a escrevia a realidade da hora que passa, e desaparecendo mal ficava escrita, porque meu cérebro não tinha visão, nem meu punho a arte, para transcrevê-la."

Comentários

rosa disse…
Hoje inscrevi-me na Biblioteca de Setúbal, foi um acto mais importante e digno do que votar nas eleições autárquicas, apresentei o BI e carta de condução. Prometi devolver o livro em 15 dias, desdobrei marcas vincadas por outros leitores, nas páginas preferidas ou no interregno dum prazer comum.
:)
imo disse…
- Na biblioteca há alguém à minha espera.
- Quem é? O bibliotecário?
- Rosa - disseste - Eu mesma.

:)