“Ler é ir ao encontro de qualquer coisa que está para ser.”

“Ler é ir ao encontro de qualquer coisa que está para ser.”

10.24.2015

Alberto Manguel | Uma História da Curiosidade

"Gostamos de pensar, como faz Dodo, que, independentemente da direção em que corramos ou da incompetência com o que o façamos, todos devemos ser vencedores e todos temos direito a um prémio. Como o Coelho Branco, damos ordens a torto e a direito, como se os outros fossem obrigados a servir-nos (e tivessem prazer nisso). Como a Lagarta, questionamos a identidade das outras criaturas, mas mal conhecemos a nossa, mesmo quando estamos à beira de a perder. Acreditamos, como a Duquesa, que devemos castigar o comportamento irritante dos jovens, mas pouco nos interessam as razões desse comportamento. Como o Chapeleiro Louco, sentimos que só nós temos direito a comer e a beber numa mesa posta para muitas mais pessoas, e oferecemos com cinismo a quem tem sede e fome vinho, quando não há vinho, e compota, todos os dias menos hoje. Sob o domínio de déspotas como a Rainha Vermelha, somos obrigados a participar em jogos loucos com instrumentos desadequados - bolas que rebolam para longe, como ouriços, e tacos que se viram e reviram, como flamingos - e, quando não cumprimos as regras, ameaçam cortar-nos a cabeça. Os nossos métodos educativos, como o Grifo e a Tartaruga Fingida explicam à Alice, ou são exercícios de nostalgia (aprender «Patim e Prego) ou cursos de formação para servir outros (como ser lançado ao mar com as lagostas). E o nosso sistema de justiça, muito antes de Kafka o descrever, é como o que se monta para julgar o Valete de Copas: incompreensível e injusto. Poucos entre nós, contudo, têm a coragem de Alice, que, no final do livro, se ergue (literalmente) para defender as suas convicções e recusa calar-se. É graças a esse ato supremo de desobediência civil que Alice pode acordar do sonho. Nós, infelizmente, não podemos."

6.17.2015

Robert Musil | O Homem Sem Qualidades


"Podemos começar pela singular predilecção que o pensamento científico tem por explicações mecânicas, estatísticas, materiais, às quais, poderia dizer-se numa imagem, foi arrancado o coração. Ver na bondade apenas uma forma especial de egoísmo; relacionar as emoções com secreções internas; constatar que o ser humano é formado, em oito ou nove décimos, por água; explicar a célebre liberdade moral do carácter como apêndice mental automático do comércio livre; atribuir a beleza a uma digestão fácil e a bons tecidos adiposos; reduzir a procriação e o suicídio a gráficos anuais que mostram como necessidade aquilo que parece ser a mais livre das decisões; estabelecer afinidades entre o êxtase e a demência; equiparar o ânus e a boca, como extremidades rectal e oral da mesma coisa...: este tipo de concepções, que, por assim, dizer, põem a descoberto o truque por trás do passe de mágica das ilusões humanas, contam sempre com uma espécie de preconceito favorável que as faz passar por particularmente científicas. O que aí amamos é, de facto, a verdade; mas à volta desse amor nu há um gosto pela desilusão, a violência, a inexorabilidade, a fria intimidação e a seca admoestações, uma maliciosa predilecção, ou pelo menos uma involuntária emanação emocional desse tipo."

5.18.2015

Rosa Montero | A ridícula ideia de não voltar a ver-te

"Sim, as mágoas de amor abrem abismos insuspeitados, espasmos de agonia que, creio, se referem na realidade a outra coisa, que vão mais além da história amorosa concreta, que se relacionam com algo muito básico da nossa construção emocional, com a pedra angular em que assenta o edifício que somos. O desamor derruba e derrota."

Xavier de Maistre | Viagem à volta do meu quarto


"Dormitei insensivelmente enquanto a água aquecia. Gozava aquele encantador prazer de que falei aos meus leitores e que se experimenta quando nos sentimos adormecer. O barulho agradável que Joannetti fazia, ao bater com a cafeteira no cão da chaminé, ressoava na minha cabeça e fazia vibrar todas as minhas fibras sensíveis, como uma corda de harpa  faz ressoar as oitavas. Finalmente, vim como que uma sombra diante de mim; abri os olhos, era Joannetti. Ah! que aroma! que agradável surpresa! Café! leite! Uma pirâmide de pão torrado! Bom leitor, tome o pequeno-almoço comigo."

4.07.2015

Matilde Campilho | Jóquei


"Aquele amor
aquele que eu pensei
que se despedaçaria como
um meteorito no Minnesota
(uma coisa assim
estrondosa abusiva
gritante maravilhosa
estilhaço prolongado
cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos."

4.06.2015

Alexandra Lucas Coelho | O Meu Amante de Domingo


"(...) o bom vira óptimo que vira sofrível que vira péssimo, dependendo da fantasia e da teimosia, da inclinação e da dedicação, da profundidade e da velocidade de miragens por segundo na cabeça, além das circunstâncias, que podem ser relevantes (...)."

"Ninguém está tão destinado à minha vida quanto eu. Os próximos, aqueles a quem me dedico e se me dedicam, conhecem melhor a minha fúria do que o meu lamento, e há uma boa razão para isso: a minha fúria é mais forte do que o meu lamento. Distorcendo Nietzsche, o que não me mata, morre, nem que seja pelo riso."

3.25.2015

Alice Munro | Amada Vida


"O essencial é ser feliz. Não importa em quê. Faz um esforço nesse sentido. Vais ver que és capaz. Com o tempo, torna-se cada vez mais fácil. Não depende em nada das circunstâncias. Nem imaginas como é bom. Aceita tudo, e a tragédia desaparece. Ou pelo menos torna-se mais leve, e de repente estás apenas ali, a caminhar serenamente no mundo."
 

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