"Gostamos de pensar, como faz Dodo, que, independentemente da direção em que corramos ou da...



"Gostamos de pensar, como faz Dodo, que, independentemente da direção em que corramos ou da incompetência com o que o façamos, todos devemos ser vencedores e todos temos direito a um prémio. Como o Coelho Branco, damos ordens a torto e a direito, como se os outros fossem obrigados a servir-nos (e tivessem prazer nisso). Como a Lagarta, questionamos a identidade das outras criaturas, mas mal conhecemos a nossa, mesmo quando estamos à beira de a perder. Acreditamos, como a Duquesa, que devemos castigar o comportamento irritante dos jovens, mas pouco nos interessam as razões desse comportamento. Como o Chapeleiro Louco, sentimos que só nós temos direito a comer e a beber numa mesa posta para muitas mais pessoas, e oferecemos com cinismo a quem tem sede e fome vinho, quando não há vinho, e compota, todos os dias menos hoje. Sob o domínio de déspotas como a Rainha Vermelha, somos obrigados a participar em jogos loucos com instrumentos desadequados - bolas que rebolam para longe, como ouriços, e tacos que se viram e reviram, como flamingos - e, quando não cumprimos as regras, ameaçam cortar-nos a cabeça. Os nossos métodos educativos, como o Grifo e a Tartaruga Fingida explicam à Alice, ou são exercícios de nostalgia (aprender «Patim e Prego) ou cursos de formação para servir outros (como ser lançado ao mar com as lagostas). E o nosso sistema de justiça, muito antes de Kafka o descrever, é como o que se monta para julgar o Valete de Copas: incompreensível e injusto. Poucos entre nós, contudo, têm a coragem de Alice, que, no final do livro, se ergue (literalmente) para defender as suas convicções e recusa calar-se. É graças a esse ato supremo de desobediência civil que Alice pode acordar do sonho. Nós, infelizmente, não podemos."

"Podemos começar pela singular predilecção que o pensamento científico tem por explicaç...


"Podemos começar pela singular predilecção que o pensamento científico tem por explicações mecânicas, estatísticas, materiais, às quais, poderia dizer-se numa imagem, foi arrancado o coração. Ver na bondade apenas uma forma especial de egoísmo; relacionar as emoções com secreções internas; constatar que o ser humano é formado, em oito ou nove décimos, por água; explicar a célebre liberdade moral do carácter como apêndice mental automático do comércio livre; atribuir a beleza a uma digestão fácil e a bons tecidos adiposos; reduzir a procriação e o suicídio a gráficos anuais que mostram como necessidade aquilo que parece ser a mais livre das decisões; estabelecer afinidades entre o êxtase e a demência; equiparar o ânus e a boca, como extremidades rectal e oral da mesma coisa...: este tipo de concepções, que, por assim, dizer, põem a descoberto o truque por trás do passe de mágica das ilusões humanas, contam sempre com uma espécie de preconceito favorável que as faz passar por particularmente científicas. O que aí amamos é, de facto, a verdade; mas à volta desse amor nu há um gosto pela desilusão, a violência, a inexorabilidade, a fria intimidação e a seca admoestações, uma maliciosa predilecção, ou pelo menos uma involuntária emanação emocional desse tipo."

"Sim, as mágoas de amor abrem abismos insuspeitados, espasmos de agonia que, creio, se ...


"Sim, as mágoas de amor abrem abismos insuspeitados, espasmos de agonia que, creio, se referem na realidade a outra coisa, que vão mais além da história amorosa concreta, que se relacionam com algo muito básico da nossa construção emocional, com a pedra angular em que assenta o edifício que somos. O desamor derruba e derrota."

"Dormitei insensivelmente enquanto a água aquecia. Gozava aquele encantador prazer ...


"Dormitei insensivelmente enquanto a água aquecia. Gozava aquele encantador prazer de que falei aos meus leitores e que se experimenta quando nos sentimos adormecer. O barulho agradável que Joannetti fazia, ao bater com a cafeteira no cão da chaminé, ressoava na minha cabeça e fazia vibrar todas as minhas fibras sensíveis, como uma corda de harpa  faz ressoar as oitavas. Finalmente, vim como que uma sombra diante de mim; abri os olhos, era Joannetti. Ah! que aroma! que agradável surpresa! Café! leite! Uma pirâmide de pão torrado! Bom leitor, tome o pequeno-almoço comigo."

"Aquele amor aquele que eu pensei que se despedaçaria como um meteorito no Minnesota (...


"Aquele amor aquele que eu pensei que se despedaçaria como um meteorito no Minnesota (uma coisa assim estrondosa abusiva gritante maravilhosa estilhaço prolongado cheio de uivos)
afinal caiu silencioso
como um aviãozinho de papel
passeando em Itaparica
em dia da apanha dos morangos."

"(...) o bom vira óptimo que vira sofrível que vira péssimo, dependendo da fantasia ...



"(...) o bom vira óptimo que vira sofrível que vira péssimo, dependendo da fantasia e da teimosia, da inclinação e da dedicação, da profundidade e da velocidade de miragens por segundo na cabeça, além das circunstâncias, que podem ser relevantes (...)."

"Ninguém está tão destinado à minha vida quanto eu. Os próximos, aqueles a quem me dedico e se me dedicam, conhecem melhor a minha fúria do que o meu lamento, e há uma boa razão para isso: a minha fúria é mais forte do que o meu lamento. Distorcendo Nietzsche, o que não me mata, morre, nem que seja pelo riso."

"O essencial é ser feliz. Não importa em quê. Faz um esforço nesse sentido. Vais ver que és...



"O essencial é ser feliz. Não importa em quê. Faz um esforço nesse sentido. Vais ver que és capaz. Com o tempo, torna-se cada vez mais fácil. Não depende em nada das circunstâncias. Nem imaginas como é bom. Aceita tudo, e a tragédia desaparece. Ou pelo menos torna-se mais leve, e de repente estás apenas ali, a caminhar serenamente no mundo."

CocoRosie - Tales of a Grass Widow 2013 Faixa: Tears for Animals ...



CocoRosie - Tales of a Grass Widow
2013



Faixa: Tears for Animals

Phosphorescent - Muchacho Dead Oceans, 2013 Faixa: Song for Zula


Phosphorescent - Muchacho
Dead Oceans, 2013



Faixa: Song for Zula

Of Monsters and Men - My Head is an Animal 2012 Faixa: Your bones



Of Monsters and Men - My Head is an Animal
2012



Faixa: Your bones

Santigold - Master of My Make-Believe Atlantic, 2012 Faixa: Disparate Y...


Santigold - Master of My Make-Believe
Atlantic, 2012



Faixa: Disparate Youth

Whitetree - Cloudland Ponderosa, 2009 Faixa: Kyril


Whitetree - Cloudland
Ponderosa, 2009



Faixa: Kyril

"Deus é um amigo imaginário. Quando morremos, morremos. Se queremos sentir reverência, co...


"Deus é um amigo imaginário. Quando morremos, morremos. Se queremos sentir reverência, contemplemos a Via Láctea com um telescópio. Neste momento, seguramos um caleidoscópio de criança contra a luz e fingimos que os losangos coloridos foram lá postos por Deus."

"Quando eu era novo, tinha pavor de voar. O livro que escolhia para ler no avião era o que achava apropriado para ser encontrado sobre o meu cadáver. Lembro-me de levar Bouvard e Pécuchet para um voo entre Paris e Londres, tentando convencer-me que, após o terrível acidente: a) ainda haveria um corpo identificável sobre o qual o encontrariam; b) o Flaubert em livro de bolso francês sobreviveria ao impacto e às chamas; c) a minha mão milagrosamente intacta (embora talvez cortada) ainda o seguraria, com o indicador hirto a marcar uma passagem particularmente apreciada, que a posteridade lembraria. Uma história plausível... E eu, naturalmente, fiquei demasiado assustado com o voo para me concentrar num romance cujas verdades irónicas, aliás, tendem a escapar aos jovens leitores."

"Eu acreditava, quando era «só» leitor, que os escritores, porque escreviam livros onde se encontrava a verdade, porque descreviam o mundo, porque perscrutavam o coração humano, porque captavam tanto o particular como o geral e eram capazes de os recriar a ambos de forma livre mas estruturada, porque compreendiam, deviam ser por isso mais sensíveis - e menos vaidosos, menos egoístas - do que as outras pessoas. Depois tornei-me escritor, comecei a encontrar outros escritores, observei-os e concluí que a única diferença entre eles e as outras pessoas, a única coisa em que eram melhores, é que eram melhores escritores. Podiam ser de facto sensíveis, perspicazes, sábios, saber generalizar e particularizar - mas só sentados à secretária e nos seus livros. Quando se aventuram no mundo, geralmente comportam-se como se tivessem deixado toda a compreensão do comportamento humano nos seus originais dactilografados."

Sebastien Tellier - Universe Lucky Number Music, 2009 Faixa: La Ritournelle


Sebastien Tellier - Universe
Lucky Number Music, 2009



Faixa: La Ritournelle

"Era absurdo, com a materialidade desta vida quotidiana a apertar-me tão intrusamente...


"Era absurdo, com a materialidade desta vida quotidiana a apertar-me tão intrusamente, tentar figurar-me a vida de outra época, ou insistir em criar à semelhança de um mundo com matéria aérea, quando, a cada passo, a beleza impalpável da minha bola de sabão se desfazia ao contacto rude de qualquer circunstância real. O esforço mais hábil fora talvez o de difundir pensamento e imaginação através da substância opaca do dia de hoje, e assim torná-la uma transparência luminosa; espiritualizar o fardo que começava a pesar tanto; procurar, resolutamente, o valor verdadeiro e indestrutível que jazia sob os incidentes pequeninos e mesquinhos, as personagens vulgares, de que eu agora tinha experiência. A culpa era minha. A página de vida, que se abria diante de mim, parecia vulgar e entediante apenas porque eu não tinha aprofundado o seu sentido íntimo. Estava ali um livro melhor que qualquer que eu venha a escrever; folha a folha apresentando-se-me à medida que a escrevia a realidade da hora que passa, e desaparecendo mal ficava escrita, porque meu cérebro não tinha visão, nem meu punho a arte, para transcrevê-la."