"Deus é um amigo imaginário. Quando morremos, morremos. Se queremos sentir reverência, contemplemos a Via Láctea com um telescópi...

Julian Barnes | Nada a Temer


"Deus é um amigo imaginário. Quando morremos, morremos. Se queremos sentir reverência, contemplemos a Via Láctea com um telescópio. Neste momento, seguramos um caleidoscópio de criança contra a luz e fingimos que os losangos coloridos foram lá postos por Deus."

"Quando eu era novo, tinha pavor de voar. O livro que escolhia para ler no avião era o que achava apropriado para ser encontrado sobre o meu cadáver. Lembro-me de levar Bouvard e Pécuchet para um voo entre Paris e Londres, tentando convencer-me que, após o terrível acidente: a) ainda haveria um corpo identificável sobre o qual o encontrariam; b) o Flaubert em livro de bolso francês sobreviveria ao impacto e às chamas; c) a minha mão milagrosamente intacta (embora talvez cortada) ainda o seguraria, com o indicador hirto a marcar uma passagem particularmente apreciada, que a posteridade lembraria. Uma história plausível... E eu, naturalmente, fiquei demasiado assustado com o voo para me concentrar num romance cujas verdades irónicas, aliás, tendem a escapar aos jovens leitores."

"Eu acreditava, quando era «só» leitor, que os escritores, porque escreviam livros onde se encontrava a verdade, porque descreviam o mundo, porque perscrutavam o coração humano, porque captavam tanto o particular como o geral e eram capazes de os recriar a ambos de forma livre mas estruturada, porque compreendiam, deviam ser por isso mais sensíveis - e menos vaidosos, menos egoístas - do que as outras pessoas. Depois tornei-me escritor, comecei a encontrar outros escritores, observei-os e concluí que a única diferença entre eles e as outras pessoas, a única coisa em que eram melhores, é que eram melhores escritores. Podiam ser de facto sensíveis, perspicazes, sábios, saber generalizar e particularizar - mas só sentados à secretária e nos seus livros. Quando se aventuram no mundo, geralmente comportam-se como se tivessem deixado toda a compreensão do comportamento humano nos seus originais dactilografados."

2 origamis:

a. disse...

inesperadamente saltou para a lista de futuras leituras.

imo disse...

Viva :)
E sabem tão bem estes "inesperados". Dele já nenhum me escapa.
Boas leituras!