Bohumil Hrabal | A Terra Onde o Tempo Parou



"Um carregador maravilhou-me: tinha no peito tatuado um barco, um veleiro, e olhando para ele os olhos encheram-se-me de lágrimas, não de choro, mas da descoberta e consciência de que também tinha que ter um barquinho assim tatuado no peito, que não podia viver sem um barquinho assim, que um barquinho assim devia dar força: era uma insígnia da alma e eu tinha que tê-lo também. (...) Eu sabia que em breve teria mais um barquinho que não se podia apagar, tatuado no peito, barco ao qual seria fiel, porque nunca poderia ser outra coisa senão marinheiro."

"Agora lá estavam sentados lado a lado, o tio Pepin apalpou a cabeça do gato e perguntou baixinho: «Estás aqui?», e o gato ronronava e rezingava, sentado, encostado atrás do tio, como um mocho nos ombros de uma vidente, o gato estava feliz e o tio também. Todas as noites se sentavam assim, sozinhos, falavam apenas um com o outro, já não conseguiam comunicar com mais ninguém. Depois aconteceu que, por duas vezes seguidas, o tio não conseguiu encontrar, às apalpadelas, o cabeça do Celestino e, por duas vezes, ninguém respondeu grunhindo à pergunta: «Estás cá?». Então o tio Pepin deixou definitavamente de andar, já nem se levantava da cama, exactamente como o Celestino, o velho gato, que já não voltou a casa, porque os velhos gatos não morrem em casa."

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